Ser mulher já é, por si só, um exercício diário de reinvenção. Desde cedo ensinam a sentar direito, falar baixo, não exagerar, não provocar, não ocupar espaço demais. A mulher aprende a diminuir os próprios excessos antes mesmo de descobrir quais são. E talvez seja por isso que tantas cresçam acreditando que amar é, inevitavelmente, abrir mão de si.
Mais tarde, algumas viram mães.
Eu não sou mãe. Mas observo as mulheres que são.
Observo no supermercado quando elas estão tentando equilibrar sacolas numa mão e a infância inteira de alguém na outra. Observo no ônibus, com crianças dormindo no colo e preocupações acordadas na cabeça. Observo no olhar de quem passou a madrugada inteira em claro e, ainda assim, encontra delicadeza para perguntar: “você comeu direito hoje?”
Existe uma exaustão muito particular nas mães. Uma espécie de permanência. Mesmo cansadas, elas continuam. Continuam fazendo almoço enquanto resolvem problemas pelo telefone. Continuam lembrando vacina, reunião da escola, consulta com o pediatra, boleto, remédio, aniversário, casaco na mochila. E o guarda-chuva — levou? Continuam acolhendo choros enquanto escondem os próprios.
E talvez uma das violências mais sutis da maternidade seja justamente o desaparecimento da mulher dentro dela.
Ela deixa de ser Helena, Maria, Fernanda. Vira “mãe do Pedro”, “mãe da Júlia”, “esposa de alguém”. Como se a maternidade exigisse esse apagamento para ser validada. Como se o amor materno precisasse renunciar à individualidade para parecer verdadeiro.
Mas existe uma mulher ali. Sempre existiu.
Uma mulher que também sente medo, raiva, frustração. Que às vezes queria silêncio. Que às vezes se sente insuficiente. Que improvisa a vida muito mais do que os filhos imaginam. E eu acho bonito quando um filho finalmente enxerga a mulher dentro da mãe. Não a heroína. Não a santa cansada dos comerciais de margarina. Mas a mulher real: contraditória, sensível, às vezes impaciente, às vezes forte demais porque nunca teve opção de ser frágil.
Eu não sou mãe. Mas observo as mulheres que são.
E existe uma outra coisa que eu observo muito: nem toda mulher que materna é mãe. E talvez a gente precise falar mais sobre isso.
Existe um tipo de cuidado que ultrapassa o sangue. Mulheres que nunca gestaram um filho, mas passaram a vida inteira acolhendo alguém. A tia que escuta sem julgamento. A avó que cria. A professora que percebe silêncios que ninguém percebeu. A irmã mais velha que amadureceu cedo demais. A amiga que vira abrigo quando o mundo desaba.
A maternidade, às vezes, acontece sem parto. E talvez muitas mulheres carreguem dentro de si essa vocação involuntária do cuidado. Algumas escolheram isso. Outras apenas foram ensinadas, desde meninas, que amar significa responsabilizar-se por todos ao redor.
Mulheres que não tiveram filhos, mas deixaram marcas maternas em inúmeras vidas. Que deram colo emocional, conselho, abrigo, escuta. Mulheres que nunca ouviram alguém chamá-las de mãe, mas já salvaram pessoas do abandono sem nem perceber. E também existe dor nesse assunto. Porque nem toda mulher que não teve filhos simplesmente “não quis”. Às vezes a vida interrompeu planos, adiou sonhos, mudou rotas. E, ainda assim, muitas delas continuam transformando o mundo através do cuidado.
No final das contas, ser mãe talvez seja menos um título e mais uma forma de permanecer no mundo através do cuidado.
Porque há mulheres que geram filhos.
E há mulheres que geram abrigo.
Mulheres que seguram mãos em dias difíceis, que salvam alguém do próprio silêncio, que oferecem colo sem perceber que aquilo também é uma forma de maternidade.
Talvez ser mãe não esteja apenas no parto. Talvez esteja na capacidade rara de fazer alguém se sentir menos sozinho no mundo.
E num tempo tão duro, tão distraído e tão apressado, isso talvez seja uma das formas mais profundas de amor que existem.
Neste Dia das Mães, desejo um feliz domingo para todas as mulheres que maternam: as que geraram filhos e também as que, de outras maneiras, aprenderam a cuidar, acolher e permanecer. Que nunca lhes falte amor, reconhecimento e, sobretudo, espaço para continuarem sendo mulheres além de qualquer título.
Até o próximo texto!
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